(Me saio...)

Me saio
me olho
mas só vejo
tua ausência.


Claudio Correia
05/86

Inegavelmente Amor

Por que dizer que o pensamento
já não te toca
e que minha voz
teu nome não evoca?

Por que dizer que a mão
já não te busca
e que te deixar
nada me custa?

Mentir de nada vale,
nada muda.
Dizer que logo esqueço
não me ajuda.
Contido, tudo o que sinto
em mim mal cabe,
e se fujo, logo volto,
você bem sabe.

Cláudio Correia
06/84

Amor II

Eternidade
é a intenção,
realidade
a duração.

Cláudio
04/85


Canção e Poesia

Canção
pulsação
de quem tem o rítmo
no coração
e o som correndo
nas veias.

Poesia
magia
de quem tem a voz
nas mãos
e pode colocá-la
nas areias.

Claudio Correia
04/85

De Vagar

Da busca de meu espaço
veio esse vagar sem fim.
Há tanto vou que já não sei mais
porque parto tanto assim.
Sei que existem muitos braços
mas quanto mais me dou aos passos
mais longe ficam de mim.

As despedidas foram muitas
e ainda há que eu não queira,
pois mesmo tantas sendo
cada uma dói como a primeira.
Sigo assim por tanta estrada
que às vezes vai dar em nada,
só solidão,pó, poeira.

O encanto é momentâneo
para quem vive indo e vindo.
Ao chegar se esconde o pranto
só é difícil ir sorrindo,
mas existe sempre o desejo
de que não seja sempre sonho
o vagar que seja findo.

Claudio Correia
06/85

(Pego-me te desejando ardentemente...)

Pego-me te desejando ardentemente
em um momento tão puro
ao ponto de ser raro
nas noites em que triste vago
em busca daquele eu contente.

Espalho-me pelos ares da alvorada.
Ah! tantas foram as horas
agora saudosas.
Quantas vezes me despi
em versos e prosas
sem pudor, sem receio
ao olhar da amada.

Meus lábios querem teus beijos doces,
minhas mãos os teus seios brancos
e meus olhos te buscam num vago olhar.
São momentos poucos para desejos tantos
que o mesmo amor também é o mesmo penar
de corações palpitando em delírios e prantos
suspirando com o vento
lagrimando com o mar.

Claudio Correia
11/85




Haverá

Entre lá e cá
entre terra e ar
haverá uma marca
que não vai se apagar.
Haverá sempre um momento
entre noite e dia
que mesmo sendo irmão do tempo
não existirá só para passar.

Haverá uma mansidão
a se rebelar,
haverá uma tentativa
a se redobrar
e assim, por vivermos
entre o que vem e o que vai,
entre o eterno e o jamais,
haverá sempre uma luz
para nos iluminar.



Cláudio Correia
06/84


Tormento

Revirando as folhas
vai o vento
e bem além dos passos
vou atento,
como quem não quer
morrer momento,
da noite no dia
amanhecer
querendo ver quem vai
deter no peito o tormento.

Pelos espaços
do vagar à toa
eu solto a ave
que em mim voa,
como quem quer deixar a dor,
louco por saber do vento
quem vai impedir o tempo
de revirar o amor.

Claudio Correia
10/84

Louco

Te fitei
e com  mais do que olhos
te desejei,
e a paixão se fez incessante
e o tempo se fez pouco.

Te guardei
e com mais do que lembranças
te levei,
mas a distância se fez constante
e a saudade me fez louco.


--

Claudio
mai/84

Lena

Tudo que em ti ficava
ficava triste e apagado,
em mim o que restava
era sonhar estar ao teu lado.

Como tudo foi lindo
e como o tempo passou,
tanto que já não espero
pelo pouco que restou.

---
Claudio
jul/84

(Saudade é aquele ontem...)

Saudade é aquele ontem
que deveria estar aqui hoje
sem partir amanhã.

--
Claudio Correia

Saudade

Saudade agora é mais que uma palavra,
é o invisível que se me afigura.
Fácil foi dizer que um dia a sentiria,
difícil agora é suportar o quanto dura.


Cláudio Correia
fev/86



(Com tudo que é verso...)

Com tudo que é verso solto
tentei deixar de mim um bocado,
mas o muito que deixava era pouco
quando eu é que devia ter ficado.

Em tudo o que foi sonho meu
procurei ter mais do que sonhar,
mas descobrindo o que o tempo escondeu
vi o pouco que havia para alcançar.

De tudo o que passei lento
tentei guardar algo em mim,
só não guardei tudo o que foi momento
porque todo momento tem fim.


Cláudio Correia

Angel

Gostaria de te dar um beijinho na boca,
com exatidão e gulodice
e comer-lhe a boca
e comer os beijinhos
que tivessem lá escondidos
e encostar-me ao seu ombro
e escorregar para a ternura
dos pombinhos,
dos carinhos, das carícias,
do prazer e do gozo,
e pedir desculpas
e a desculpa ser pretexto
para começar tudo
muitas e muitas vezes.


Cláudio Correia
março/98

Hei de seguir

Hei de seguir
galgando as encostas da desilusão,
rabiscando as folhas da recordação.

Hei de seguir
corrigindo o rumo desse descaminho,
enxugando a mágoa de seguir sozinho.

Hei de seguir
fechando os olhos da intranquilidade,
resoluto e indefesso
esboçando meus sonhos
nas paredes frias da realidade.



Cláudio Correia
1993



Sabíamos

Sabíamos de nós
sabíamos de sóis
luas e ruas,
cidades nuas.

Sabíamos de encontros
sabíamos de encantos
dos desejos e seus portos.
Sabíamos do amor
da paixão e do calor
no íntimos dos corpos.

Sabíamos de quartos
crescentes e minguantes.
Sabíamos de gestos
simples e insinuantes.

Sabíamos do tempo
mas o tempo no fundo
não nos soube assim
e soubemos do fim.

Cláudio Correia
1987

Momento

É um momento na mão
e noutro instante perdido
já sem tempo
já sem volta,
quem sabe até esquecido
como muitas coisas
destinadas a passar.

É um momento sorrir
e outro momento chorar,
ter um coração pra existir
se perder e se encontrar.
Cabe um sonho em cada onda do mar,
cabe uma saudade em cada olhar,
e o momento passa assim;
nascido pra se acabar.


Cláudio Correia
junho/86

(Se muito daqui fujo...)

Se muito daqui fujo
é pelo tanto que me solto.
Ah! Já nem o tempo sabe
a tanto quanto a ti volto.


Cláudio Correia

(O que em mim...)

O que em mim tenho de nuvem
é a leveza da minha esperança
no sopro da minha ilusão,
mais intensa, menos breve.

O que a noite tem de claridade
é o nosso amor na escuridão
farol do nosso coração,
brilho que nos precede.

O que o adeus tem de verdade
é que posso voltar em breve
pelo que o amor tem de luz,
pelo que a esperança tem de leve.


Cláudio Correia
ago/85

(Me guarde...)

Me guarde
o tanto que me perco
a sonhar noites a fio
sem ter noção do tempo,
a buscar calor no frio
num abraço sem espaço
até acordar novamente
no mesmo quarto vazio.

Cláudio Correia
1984

(Esse sonho de encontro...)

Esse sonho de encontro
muitas vezes se desencanta
nas distância de um caminho
e o gostar se perde do coração
fazendo a gente seguir sozinho.

Muitas mãos se desencontram
umas das outras na fuga de um vazio.
Na volta é que se percebe o mar,
quando não se tem mais navio.

Cláudio Correia
maio/84

(Era o sol...)

Era o sol
sobre nossas cabeças a brilhar.
Era o tempo
em todos os momentos
apressado em passar.

Onde haverá
instante bonito
que como o sol no infinito
fique pairando no ar?
Quem saberá
de bocas unidas
que em distâncias indefinidas
não se deixam de beijar?


Cláudio Correia
dez/84

Mais Um Verso

Eu quero mais um verso
no limiar do instinto
sem ocultar teu silêncio
e sem calar o que sinto.

Algo que não se disperse
já que o momento não dura,
mas que fique no tormento
um berço de plena candura.

Cláudio Correia

Eu Poeta

Aqui sou completo
aqui sou repleto
de prantos e risos
de idas e vindas.
Aqui eu me encanto
aqui eu me encontro
vazio e pleno
de coisas infindas.

Aqui me dou
aqui sou
instante constante
momentos dispersos.
Aqui eu sonho
aqui eu ponho
a luz do meu ser,
nos meus versos.


Cláudio Correia
fev/84


Irmãos de Luz

Te quero assim
a meu lado,
a mão que me afaga.
Me quero assim
ao lado teu,
o ombro que te conforta.
Nós dois assim,
corações e mentes
que nem o tempo separa.
Um só assim,
nascido de dois
que pouco espaço não comporta.

Um mistério em nós
que só o amor entende
e a amizade revela.
Irmãos de luz,
de som, de vida,
de coisas lindas.
Uma louca paixão
que quanto mais sã
mais é loucura bela.
Estranho estado
de coisas inseparáveis
tanto quanto infindas.


Cláudio Correia
1994

Retorno ao Eu Só

Me desencontro
dos teus passos,
me desabrigo
dos teus braços.
Me reciclo
dos teus atos,
me recupero
dos fatos.

Na insanidade da dor
me refaço aos poucos
e emerjo dos loucos
mergulhos divinos
na insanidade do amor.


Claudio Correia
1993







Amor

Dar-te-ei de mim
o que de princípio parece fim
mas que já é constante,
e com tal jeito
suplantará o que é pouco
que nada será distante
nem vazio,
nem triste o bastante
que o impeça de ser perfeito.


Claudio Correia
1985



(Quisera entendesses...)

Quisera entendesses meu encanto
de te descobrir em plenitude
e em meio a teu espanto
te adorar, muito e amiúde.

Ficamos vagamente surpreendidos
de nos vermos tão livres e ousados,
muito mais ainda, tão unidos,
nós que há muito andávamos separados.

Só assim, pude enfim te tocar
como antes só podia sonhar,
um amor louco, tanto quanto sereno.

E que visão mais perfeita,
depois, sobre a cama desfeita
o púbis negro sobre o corpo moreno.

Cláudio Correia
1985

Saudade

Retornar ao tempo
de olhar no centro
e saber do momento
de rir e envolver.
Saber como é
o sonho e o prazer
de reter na mente
o jeito antigo da razão
e eternamente
guardar o entender
para sempre completo
do porque.

Claudio Correia
1980

(Subo serras)

Subo serra
navego mares
caminho incansável
muitas terras,
escalo imbatível
muitos morros
enquanto morro
n'outros sonhos
n'outras terras
em mil lembrânças.


Cláudio Correia

Há Dias

Há dias em que grito
e outros em que calo teu nome,
como há noites em que durmo
e outras em que passo insone.

Há dias em que sou minuto
em outros em que sou mais constante,
há uns em que tenho tudo perto
e outros em que estou distante.

Há dias em que sou poeta
e outros em que me faltam os versos,
há os que são feitos de sonhos
e os que são sonhos dispersos.

Há dias em que venço o medo
e outros em que me acovardo e choro,
há os em que dito e imponho
e uns em que somente imploro.

Há dias em que não te vejo
e outros em que viajo em teu abraço,
n'uns sou só vazio,
n'outros sou teu espaço.


Cláudio Correia
junho/1985




Tanto te Penso

Tanto te penso
que até de mim esqueço
e não me vou o tanto
quanto a ti volto
e não me tenho o muito
quanto a ti deixo.

Tanto te penso
que o que me leva
são mais que os passos,
pois sonho noite e dia
e aqui ainda adormeço
aí em teus braços.

Tanto te penso
quanto o tanto espero
que não me restem cacos
de uma doce lembrança,
mas que me envolva o abraço
da nossa própria esperança.

--
Claudio Correia
agosto de 84



De mim

Tudo o que vôa de mim
não foge,
apenas  passeia
e volta,
como se fosse aqui que o dia clareia.

Tudo o que transborda de mim
não afoga,
apenas evapora
e chove,
como se fosse aqui que a vida flora.

Tudo o que sôa de mim
não grita,
apenas canta
e ecôa,
como se fosse aqui
que o amor se planta.

Tudo o que vaga de mim
não se perde,
apenas transgride
e encanta,
como se fosse aqui
que a poesia reside.

--
Claudio Correia
(18/10/84)